segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O fracasso escolar “Fahrenheit 451”

    “Bradbury não imaginou um país de analfabetos, mas diagnosticou um mundo em que a escrita foi reduzida a um papel meramente instrumental e no qual a literatura e a arte têm função “culinária” (...)  As personagens sabem ler, mas só querem ler a programação de suas televisões ou o manual técnico que lhes permitirá ter acesso a um entretenimento que preenche seu vazio.”

    O trecho acima foi extraído da apresentação escrita por Manuel da Costa Pinto da edição de 2009 do livro “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury. A obra escrita em 1953 trata de um país livre, num futuro não muito distante, onde os livros são proibidos e são incinerados. Fahrenheit 451 é a temperatura de combustão do papel.

    A semelhança com o atual ambiente escolar fundamental é surpreendente. Grande parte dos alunos não vão para a escola “estudar”, mas sim cumprir uma obrigação tendo a certeza que serão aprovados. Quanto ao saber? Pouco importa.

    “Após dez anos de prática com as conchas enfiadas nas orelhas, era perita em leitura labial. Ela novamente anuiu com a cabeça e tornou a ajustar a torradeira para outra fatia de pão.”

    O cotidiano escolar paulista que somente os professores (e alunos) conhecem em brigar com as novas tecnologias que vieram, até a presente data, para corroer ainda mais a educação quando os alunos insistem em ligar seus telefones ou MP3 nas aulas.

    Os assuntos entre os alunos giram em torno de “ficar”, gíria que significa namoro imediato e sem compromisso, demonstrando falta de valor e importância para consigos mesmos e desprezo para valores mais profundos. Novamente telefones celulares e outros assuntos superficiais, evitando qualquer aprofundamento ou coisas que dêem trabalho.

    “-As pessoas não conversam sobre nada.
    - Ah, elas devem falar de alguma coisa!
    - Não, de nada. O que mais falam é de marcas de carros ou roupas ou piscinas e dizem: ‘Que legal’. Mas todos dizem a mesma coisa e ninguém diz nada diferente de ninguém. E nos bares, ligam as jukebox e são sempre as mesmas piadas, ou o telão musical está aceso e os desenhos coloridos ficam subindo e descendo, mas é só cor e tudo abstrato. Você já foi alguma vez a um museu? Tudo abstrato. É só o que há agora. Meu tio diz que antigamente era diferente. Muito tempo atrás, os quadros às vezes diziam alguma coisa ou até mostravam pessoas.”

    Compromissos com o saber, com a capacidade de aprender e investigar, a curiosidade de entender os mecanismos e relações do dia-a-dia e coisas mais complexas, foi tudo vencido pelo caminho mais fácil de apertar alguns botões e ouvir ou ver num “display’ uma imagem musicada desprovida de qualquer valor estético mais sofisticado.

    O fracasso escolar possui aliados poderosíssimos, está presente e é necessário enfrentá-lo.

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